Abrir e cumprir a lei

Licenças para abrir um restaurante em Portugal
São várias licenças, não uma. O espaço precisa de autorização de utilização compatível com restauração, dada pela câmara municipal. A abertura comunica-se por mera comunicação prévia no portal Gov.pt. Falta ainda segurança contra incêndio, ruído, acessibilidade acima de 150 metros quadrados, ocupação de espaço público e a licença de música.
Quem abre pela primeira vez procura a licença do restaurante, no singular. Não há uma. Há um conjunto de autorizações e comunicações, cada uma com a sua entidade, e a maior parte resolve-se antes de existir cozinha montada. Esta página é o mapa. Cada peça tem depois o seu artigo.
O que trata cada uma, e com quem
| O quê | Com quem, e para quê |
|---|---|
| Autorização de utilização | Câmara municipal. O espaço tem de poder ser restauração antes de tudo o resto |
| Obras | Câmara municipal, quando saem da conservação e do interior da fração |
| Segurança contra incêndio | Projeto de especialidade ou ficha de segurança, com as medidas de autoproteção a parecer da ANPC |
| Mera comunicação prévia | Portal Gov.pt, dirigida à câmara. É o ato que abre a casa |
| Início de atividade | Autoridade Tributária e Segurança Social |
| Ruído | Câmara municipal, com projeto ou ensaios acústicos feitos por entidade acreditada |
| Acessibilidade | Câmara municipal, acima de 150 m² de área de acesso ao público |
| Ocupação de espaço público | Câmara municipal: toldo, esplanada, guarda-vento, estrado e publicidade na fachada |
| Música gravada | SPA, GDA, AUDIOGEST e GEDIPE. Fiscaliza a IGAC |
| HACCP | Obrigação permanente, não licença. Fiscaliza a ASAE |
Fonte: o guia Abrir um Restaurante da Direção-Geral das Atividades Económicas, na versão de 20 de maio de 2025. Onde este texto e o guia divergirem, vale o guia.
O espaço vem antes de tudo
Qualquer espaço onde se instale o estabelecimento precisa de autorização de utilização concedida pela câmara municipal. Se o edifício é usado, confirme se a autorização existente serve para restauração e bebidas. Se não servir, há um processo de alteração de uso pelo meio, com projeto, e isso muda o calendário todo.
A parte que apanha mais gente está nos prédios com várias frações. Se o licenciamento original do edifício não discriminar o uso da fração, ou se o uso previsto não permitir restauração e bebidas, é preciso obter a concordância dos outros proprietários. Um vizinho pode travar a abertura, e descobrir isso depois de assinar o contrato é caro. Antes de chegar aqui, veja como escolher a localização de um restaurante e, se o espaço vem de outra casa, o que se compra num trespasse.
A mera comunicação prévia
É o ato que permite abrir. Submete-se no portal Gov.pt, dirigida à câmara municipal territorialmente competente, e exige autenticação por Cartão de Cidadão ou Chave Móvel Digital. Depois de submetida recebe um comprovativo de entrega no correio eletrónico que indicou.
Tenha isto à mão antes de começar o formulário:
- Cartão de Cidadão ou Bilhete de Identidade, e o NIF.
- Endereço de correio eletrónico e morada do estabelecimento.
- Data de abertura.
- Código CAE da atividade. A Classificação Portuguesa das Atividades Económicas mudou para a Revisão 4 a 1 de janeiro de 2025 e alterou códigos na restauração e bebidas, por isso confirme o seu no INE em vez de reaproveitar o de outra casa.
- Capacidade do estabelecimento e número de pessoas ao serviço.
A câmara pode cobrar uma taxa ou não, conforme o regulamento municipal. Se não cobrar, pode iniciar a atividade de imediato. Se cobrar, só pode abrir depois de a pagar. Guarde os dois comprovativos, o da comunicação e o do pagamento, acessíveis no estabelecimento.
Há um segundo caminho, menos comum: quando se pede dispensa de algum requisito, o procedimento deixa de ser comunicação e passa a autorização da câmara. Aí espera-se por decisão.
Incêndio, ruído e acessibilidade
Se a instalação implicar obras sujeitas a licenciamento ou a comunicação prévia, o pedido leva o projeto de especialidade de segurança contra incêndio. Quando a utilização é de risco reduzido, basta uma ficha de segurança conforme o modelo da ANPC. Em obra de construção, de alteração ou de mudança de uso há ainda as medidas de autoproteção, que sobem a parecer da ANPC até 30 dias antes de o espaço entrar em utilização. Fora do risco reduzido, acrescem inspeções regulares, com uma periodicidade que oscila entre 3 e 6 anos consoante a categoria de risco.
O ruído mede-se por períodos: diurno das 7 às 20 horas, entardecer das 20 às 23, noturno das 23 às 7. Os ensaios e medições acústicas têm de ser feitos por entidades acreditadas. Pergunte na câmara, antes de instalar, se a morada cai em zona sensível ou mista. É uma pergunta de cinco minutos que decide se pode ter música.
A acessibilidade entra acima de 150 metros quadrados de área de acesso ao público. As normas cobrem o acesso ao estabelecimento e a circulação lá dentro, das rampas às dimensões de portas, corredores e casas de banho.
A licença de que quase ninguém se lembra
Passar música no estabelecimento, por rádio, televisão, internet ou qualquer outro suporte, exige autorização de quem tem os direitos. São quatro entidades e não uma: a SPA representa os autores, a GDA os artistas, intérpretes e executantes, a AUDIOGEST os produtores fonográficos, e a GEDIPE cobre os aparelhos de televisão em estabelecimentos abertos ao público.
A PASSMUSICA, que muita gente ainda procura, era a marca do licenciamento conjunto da AUDIOGEST e da GDA. Desde 2022 a cobrança dos direitos de comunicação pública é feita apenas pela AUDIOGEST. A fiscalização é da Inspeção-Geral das Atividades Culturais.
Quantos lugares cabem, segundo a lei
A capacidade não é o que couber. Calcula-se a partir da área destinada ao serviço dos clientes, retirada a área dos corredores de circulação obrigatórios:
| Tipo de lugar | Área por lugar |
|---|---|
| Sentado | 0,75 m² |
| De pé | 0,50 m² |
A zona de acolhimento e receção, o bengaleiro e as instalações sanitárias não entram nesta conta. Este número não é burocracia solta: vai no formulário da comunicação prévia e arrasta duas obrigações. Aos 30 lugares, as casas de banho dos clientes passam a ser separadas por género, com retretes em cabines individualizadas. E as instalações sanitárias para o pessoal deixam de ser dispensáveis quando o estabelecimento passa dos 150 metros quadrados de área total.
O resto do caminho
- A ordem das tarefas, da ideia à primeira mesa, está em abrir um restaurante passo a passo.
- Onde vai o dinheiro e quanto guardar de lado, em quanto custa abrir um restaurante em Portugal.
- O sistema de segurança alimentar e os registos que a ASAE pede, em plano HACCP para restaurantes.
- A esplanada tem regime próprio e limites municipais, em licença de esplanada, como pedir.
- As dez que mais custam a quem abre pela primeira vez, em o que convém saber antes de abrir um restaurante.
- E a pergunta que vem antes de todas as licenças, em vale a pena abrir um restaurante.
Uma nota de honestidade: os limites municipais mudam de câmara para câmara e a lei muda com o tempo. Este texto serve para saber o que perguntar e a quem. Não substitui a consulta à câmara do seu município nem o parecer de quem trata do processo.
Perguntas frequentes
- Que licenças são mesmo precisas para abrir um restaurante?
- O espaço tem de ter autorização de utilização compatível com restauração e bebidas, emitida pela câmara municipal. A abertura faz-se por mera comunicação prévia dirigida à câmara, submetida no portal Gov.pt. O que se acrescenta depois depende da casa: segurança contra incêndio, ruído, acessibilidade, ocupação de espaço público e música.
- O meu espaço serve para restauração?
- Depende do que diz a autorização de utilização da fração, e confirma-se na câmara municipal antes de assinar seja o que for. Num prédio com várias frações, se o licenciamento original não discriminar o uso ou não permitir restauração e bebidas, é preciso a concordância dos outros proprietários para obter a autorização.
- Preciso de licença para ter música no restaurante?
- Sim, e é a que mais gente esquece. Passar música gravada por rádio, televisão, internet ou outro suporte exige autorização dos titulares dos direitos: a SPA pelos autores, a GDA pelos artistas, a AUDIOGEST pelos produtores fonográficos e a GEDIPE para os aparelhos de televisão. Quem fiscaliza é a IGAC.
- Quantos lugares posso ter na sala?
- O número máximo calcula-se a partir da área destinada ao serviço dos clientes, retirada a área dos corredores de circulação obrigatórios: 0,75 metros quadrados por lugar sentado e 0,50 por lugar de pé. A zona de acolhimento e receção, o bengaleiro e as instalações sanitárias não contam para essa área.
- A partir de que tamanho o restaurante tem de ser acessível?
- A partir de 150 metros quadrados de área de acesso ao público aplicam-se as normas técnicas de acessibilidade a pessoas com mobilidade condicionada ou reduzida, das rampas e escadas às dimensões de portas, corredores e instalações sanitárias. A câmara verifica isto no pedido de obras ou de autorização de utilização.
- Uma casa com 30 lugares precisa de casas de banho separadas?
- Sim. Nos estabelecimentos com capacidade igual ou superior a 30 lugares, as instalações sanitárias dos clientes são obrigatoriamente separadas por género e têm de dispor de retretes em cabines individualizadas. Abaixo desse número essa separação não é exigida.
Fontes
Continuar a ler
- Abrir um restaurante em Portugal: o que custa e o que é preciso
- Abrir um restaurante em Portugal, passo a passo
- 10 coisas que convém saber antes de abrir um restaurante
- Vale a pena abrir um restaurante? Vantagens e desvantagens
- Plano HACCP para restaurantes: o que é e o que tem de ter
- Licença de esplanada: como pedir e o que muda por município
- Trespasse de restaurante: o que se compra e o que corre mal
- Escolher a localização de um restaurante