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Subir preços sem perder clientes

Não suba tudo ao mesmo tempo nem na mesma percentagem. Comece pelos pratos onde a ficha técnica mostra perda, deixe em paz os dois ou três que os habituais pedem sempre, e mude alguma coisa visível ao mesmo tempo, para o cliente registar uma casa que mudou e não uma casa mais cara.

Poucas decisões num restaurante causam tanta ansiedade como mexer nos preços. O receio é sempre o mesmo: perder os clientes habituais, que são precisamente os que pagam a casa.

Primeiro, veja se é mesmo preciso

Subir preços é a alteração mais visível que existe e deve ser a última a tentar. Antes disso há duas coisas mais baratas.

Refaça as fichas técnicas com os preços de compra deste mês. Costuma aparecer um ou dois pratos a serem vendidos quase ao custo sem ninguém dar por isso, e corrigir esses não é subir preços, é acertar um erro.

E veja se o problema é preço ou conta pequena. Uma casa que não vende entradas nem sobremesas tem uma margem escondida à espera, sem tocar na tabela. Está em ticket médio.

Se for mesmo preciso, não suba tudo

O erro clássico é passar a carta toda a régua e aumentar dez por cento em tudo. É o que garante que toda a gente repara.

  • Suba onde a conta obriga. Os pratos cuja margem caiu, e só esses.
  • Deixe as âncoras em paz. Os dois ou três pratos que os habituais pedem sempre são a referência de preço na cabeça deles. Mexer aí faz a casa parecer mais cara do que ficou.
  • Cuidado com as barreiras. Passar de 9,50 para 10,50 nota-se muito mais do que de 11 para 12, mesmo sendo o mesmo euro.
  • Prefira mexer mais vezes e menos de cada vez. Dois anos sem tocar e depois uma subida grande é o pior dos dois mundos.

Mude alguma coisa visível ao mesmo tempo

Esta é a parte que separa uma subida bem feita de uma mal feita. Se a única coisa que muda é o número, o cliente regista que ficou mais caro. Se mudar mais alguma coisa, regista que a casa mudou.

Não precisa de ser grande, precisa de ser notado:

  • Pão melhor à mesa, ou passar a ser feito na casa.
  • Apresentação diferente dos pratos que subiram. Está em empratamento.
  • Carta nova, impressa, em vez de preços corrigidos por cima.
  • Uma entrada nova, ou uma sobremesa que não havia.

O contrário disto é o autocolante por cima do preço antigo. Diz ao cliente, com todas as letras, que a única coisa que mudou foi ele pagar mais.

Avise a equipa antes

Um empregado apanhado de surpresa à frente de uma mesa transmite que a casa está a ser oportunista, mesmo quando não está. Diga antes, explique porquê, e combine uma frase para todos usarem.

Uma que funciona: dizer o que subiu e o que se manteve. Concreta, verdadeira, sem pedir desculpa e sem culpar fornecedores em abstrato, que é o que soa a desculpa.

O que esperar depois

Alguns clientes vão comentar na primeira semana. Quase nenhum deixa de vir por causa disso, desde que a subida seja proporcional e a casa continue a valer o que cobra.

Meça duas coisas durante um mês: quantas pessoas serviu, e o valor médio por pessoa. Se o número de clientes se mantiver e o valor médio subir, a subida passou. Se o número de clientes cair de forma clara, subiu de mais ou subiu no prato errado, e ainda vai a tempo de recuar num deles.

O efeito de tudo isto no resultado do ano está em margem de lucro.

Perguntas frequentes

Quando é que se deve aumentar os preços?
Quando a ficha técnica com os preços de compra deste mês mostra que a margem de um prato caiu abaixo do que a casa precisa. Não é uma decisão de calendário nem de inflação anunciada nas notícias, é uma decisão que sai de uma folha de cálculo com os seus números.
Quanto devo aumentar de cada vez?
O suficiente para corrigir a margem do prato que está em causa, e não mais. Subidas pequenas e mais frequentes passam quase sempre despercebidas; uma subida grande de uma vez, depois de dois anos sem mexer, é a que os clientes comentam entre eles.
Devo aumentar todos os pratos?
Não. Aumente onde a conta obriga, e deixe intocados os dois ou três pratos que os clientes habituais pedem sempre. São esses que servem de referência de preço na cabeça de quem volta, e mexer neles é o que faz a casa parecer mais cara do que ficou.
O que faço se um cliente reclamar do preço novo?
Não peça desculpa nem culpe os fornecedores em abstrato. Uma frase simples e verdadeira resolve quase sempre: dizer o que subiu e o que a casa manteve. Reclamações sobre preço quase nunca são sobre o número, são sobre a sensação de não valer o que custa.
Como aviso a equipa?
Antes de os preços mudarem, nunca no próprio serviço, e com uma frase treinada que toda a gente diga igual. Um empregado apanhado de surpresa por um cliente à frente da mesa transmite que a casa está a ser oportunista, mesmo quando não está.
Há alternativa a subir preços?
Há duas, e ambas se tentam primeiro. Corrigir pratos mal calculados costuma revelar dois ou três a serem vendidos praticamente ao custo, e isso não exige mexer na tabela. E vender mais itens por cliente, com entrada, sobremesa e café, dá o mesmo efeito na faturação sem que ninguém sinta que a casa ficou cara.

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