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IA no restaurante: o que já dá, o que ainda não, e 10 instruções úteis

Serve para escrita repetitiva: descrições de pratos, respostas a avaliações, traduções da carta para turistas e rascunhos de emails. Não serve para nada que tenha de ser verdade, como taxas de IVA, obrigações legais ou tabelas salariais, porque inventa com toda a confiança. Use-a para escrever, nunca para saber.

Vale a pena dizer isto à cabeça: nós próprios usamos IA, é como transformamos a fotografia de um prato num vídeo. O que se segue é o que aprendemos sobre onde ela ajuda mesmo e onde mete a casa em sarilhos.

A regra que evita quase todos os problemas

Use-a para escrever, nunca para saber.

A escrever, dá um rascunho razoável em segundos e você corrige. A saber, inventa. E o problema não é inventar, é inventar com um tom absolutamente seguro: artigos de decretos-lei que não existem, taxas de IVA erradas, valores de tabelas salariais tirados do nada. Se a resposta tem de ser verdadeira, a fonte é o seu contabilista ou o site oficial.

Onde ajuda e onde estraga

TarefaServe?
Descrições de pratos para a cartaSim, com revisão
Traduzir a carta para turistasSim, e é dos melhores usos
Responder a avaliaçõesSim, como rascunho
Corrigir luz e enquadramento de fotografiasSim
Resumir o que dizem as avaliações do mêsSim
Saber que taxa de IVA aplicarNão. Inventa
Saber o que a lei obrigaNão. Inventa artigos
Valores de tabelas salariaisNão. Inventa números
Calcular o custo de um pratoSó se lhe der os preços de compra

O detalhe português que ninguém avisa

Por defeito, estas ferramentas escrevem em português do Brasil, porque é o que há mais na internet. Vem cardápio em vez de ementa, celular em vez de telemóvel, e construções que um cliente português nota logo.

Peça português europeu de forma explícita em todas as instruções, e reveja à mesma. Escapa sempre alguma coisa, e numa carta nota-se.

Dez instruções prontas a usar

Copie, substitua o que está entre parêntesis retos pela informação real e leia o resultado antes de o usar. O que faz a diferença não é a forma de pedir, é o contexto que se cola.

  1. Descrições para a carta. És a escrever a carta de um restaurante em Portugal. Em português europeu, escreve a descrição deste prato em menos de 15 palavras, dizendo o corte, o método e o acompanhamento. Sem adjetivos de folheto. Prato e ingredientes: [colar].
  2. Traduzir a carta para turistas. Traduz esta carta de português para inglês, francês e espanhol. Mantém os nomes portugueses dos pratos e acrescenta a explicação entre parêntesis. Não traduzas nomes próprios de queijos, vinhos nem regiões. Carta: [colar].
  3. Responder a uma avaliação. Escreve uma resposta pública a esta avaliação, em português europeu, em três a quatro frases. Agradece, reconhece o ponto concreto, diz o que vai verificar e oferece contacto direto. Sem discutir, sem ironia e sem oferecer descontos em público. Avaliação: [colar].
  4. Perceber o que dizem as avaliações. Aqui estão as avaliações do último mês. Agrupa as queixas por tema, diz quantas vezes cada tema aparece e ordena da mais frequente para a menos. Não sugiras soluções, quero só os temas. Avaliações: [colar].
  5. Cortar uma carta grande de mais. Esta é a minha carta e as vendas dos últimos três meses por prato. Diz-me que pratos deixaria cair para ficar com sete a dez por secção, e explica cada escolha numa linha. Dados: [colar].
  6. Email ao fornecedor sobre um aumento. Escreve um email curto, em português europeu, a um fornecedor que subiu o preço. Tom firme e cordial, sem ameaças. Pergunta a razão da subida, pede prazo para absorver e pede proposta para volume maior. Contexto: [colar].
  7. Ideia para o prato do dia. Tenho estes produtos em stock e quero evitar desperdício. Sugere três pratos do dia que os usem, com o custo aproximado por dose e uma descrição de 15 palavras para cada. Stock: [colar].
  8. Publicação para as redes. Escreve três legendas curtas em português europeu para uma fotografia deste prato, para Instagram. Sem emojis a substituir palavras, sem etiquetas genéricas, sem frases de motivação. Prato: [colar].
  9. Aviso à equipa. Escreve uma mensagem curta para o grupo da equipa a avisar de uma alteração de preços que entra na segunda-feira. Explica porquê em duas frases e dá uma frase única para todos usarem se um cliente perguntar. Alteração: [colar].
  10. Explicar um documento oficial. Explica-me este texto por palavras simples, ponto por ponto, e diz o que é que ele me obriga a fazer na prática. Não acrescentes nada que não esteja no texto; se alguma coisa não estiver lá, diz que não está. Documento: [colar].

Duas coisas que não deve fazer

Não publique sem ler. É o erro que dá para ver na internet toda, e num restaurante aparece como uma descrição de prato que promete um ingrediente que a cozinha não usa. O cliente pede, não recebe, e a reclamação é legítima.

Não transforme o prato em algo que não é. Melhorar a luz de uma fotografia é uma coisa. Gerar um prato que não corresponde ao que sai da cozinha é outra, e a informação sobre um alimento não pode induzir o consumidor em erro. Está em mostrar os pratos ao cliente.

Perguntas frequentes

Para que serve mesmo a IA num restaurante?
Para trabalho de escrita que se repete e que ninguém tem tempo de fazer: descrições dos pratos da carta, respostas a avaliações, traduções para turistas, legendas para redes sociais e rascunhos de emails. São tarefas onde um rascunho razoável em segundos vale mais do que um texto perfeito daqui a duas semanas.
Posso confiar na IA para questões de IVA ou de lei?
Não. É onde ela falha pior e com mais convicção. Inventa artigos de decretos-lei, taxas e valores de tabelas salariais com um tom perfeitamente seguro. Para essas perguntas, a fonte é o seu contabilista ou o site oficial, e a IA serve no máximo para lhe explicar um texto que você já tem à frente.
A IA escreve bem em português de Portugal?
Por defeito puxa para o português do Brasil, porque é o que mais existe na internet. Cardápio em vez de ementa, celular em vez de telemóvel, você em vez do tratamento habitual. Peça explicitamente português europeu e reveja à mesma, porque escapa sempre alguma coisa.
Vale a pena usar IA para melhorar fotografias de pratos?
Para corrigir luz e enquadramento, sim, e poupa tempo. Para transformar o prato em algo que não corresponde ao que é servido, não: além de defraudar quem pede, a informação sobre um alimento não pode induzir o consumidor em erro, e a apresentação faz parte disso.
Como escrevo uma boa instrução?
Diga quem é, o que quer, para quem é, em que língua, e com que limite de tamanho. A diferença entre um resultado inútil e um bom está quase sempre no contexto que se dá, não na maneira engenhosa de pedir. Colar a informação real, como a lista de ingredientes ou a avaliação recebida, vale mais do que qualquer truque.

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